Muitos tombaram na luta dos bancários pela prioridade na vacina contra a covid-19

Publicado em 12/07/2021 14:06

Muitos tombaram na luta dos bancários pela prioridade na vacina contra a covid-19

RBA
Cláudia Mota

São Paulo – Tão logo surgiram as primeiras informações sobre vacina contra a covid-19, os bancários deram início à luta pela inclusão da categoria entre os grupos prioritários para a imunização. Foram enviados ao Ministério da Saúde documentos, ofícios, estudos que comprovavam a emergência da reivindicação. Serviço considerado essencial, os bancos permaneceram abertos durante toda a pandemia do coronavírus. O resultado foi um aumento de 176% nas mortes dos empregados de instituições financeiras públicas e privadas.

No primeiro trimestre de 2020, a média mensal de óbitos na categoria era de 18,33. Entre fevereiro e abril deste ano, essa média subiu para 52 vidas perdidas. As entidades representativas dos bancários – sindicatos, federações e a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) – corriam contra o tempo na tentativa de convencer autoridades municipais, estaduais e o governo federal. Os bancários, na linha de frente do atendimento nas agências, ou os que permaneceram nos departamentos que mantêm toda a estrutura dos bancos em funcionamento, precisavam ter prioridade na vacinação.

Finalmente, na quarta-feira (7), o Ministério da Saúde anunciou que a categoria, assim como os trabalhadores dos Correios, receberá a vacina a partir da próxima semana. Não foi uma concessão, foi conquista de uma batalha de vida ou morte. E muitos não conseguiram esperar.

Entre os milhares de bancários que perderam suas vidas estão representantes sindicais que participaram dessa luta pelo reconhecimento da categoria como essencial também na fila da vacina. Levantamento da Contraf-CUT informa pelo menos 17 diretores de entidades sindicais em todo o Brasil levados pela falta de vacina. Pessoas jovens, saudáveis, com uma vida de conquistas pela frente.

Gente que fazia diferença

Hoje se sabe que esses e outros quase 540 mil brasileiros perderam a vida para, além do descaso e negacionismo, a corrupção de um governo que cobrou propina pelo líquido que seria capaz de salvar os brasileiros.

Um deles era Fábio Rogério Pereira, dirigente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, onde era coordenador do coletivo de combate ao racismo, e da federação da categoria. Quem conheceu o funcionário do Itaú, de 45 anos, sorriso largo, apaixonado pelas filhas e pela vida, tem dificuldade de acreditar que ele foi levado pelo vírus da covid-19 em 5 de abril. Fábio chegou a visitar as agências, sempre de máscara, reforçando junto aos trabalhadores as medidas de segurança e a conscientização pela emergência do direito da categoria à vacina.

No estado de São Paulo, outros quatro dirigentes bancários perderam a vida para a falta de vacina contra a covid-19. Jeferson Rubens Boava era presidente da federação da categoria nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Natural de Itatiba (SP), era funcionário do Banco do Brasil. Márcio Adriano Peloso tinha 53 anos, era dirigente em Limeira e trabalhava na Caixa Econômica Federal. O sindicato do ABC perdeu Edson Aparecido da Silva, bancário no Bradesco, e o assessor Júlio Nascimento, ex-dirigente do sindicato de Braganca Paulista.

Dor de norte a sul

A decisão de se tornar um dirigente sindical é uma escolha pelo comunitário. A carreira profissional no banco em grande parte dos casos fica congelada. E o retorno às atividades nas unidades bancárias é via de regra dificultado pelas instituições financeiras. Apesar disso, todos os anos, milhares de bancários se somam a essa luta que construiu, ao longo de décadas, um contrato coletivo de trabalho de abrangência nacional que é exemplo de garantia de direitos.

Wanderley Antonio Crivellari foi um deles. Morto em 3 de janeiro, aos 50 anos, não estava mais na direção do sindicato de Londrina (PR). Mas dedicou boa parte de sua vida à luta dos trabalhadores atuando também na federação e na Contraf-CUT.

Os sindicatos do Sul do país também perderam Virgínia Maria de Faria Jorge – empregada da Caixa e primeira diretora de Formação do sindicato de Porto Alegre – e Jacir Antônio Zimmer. O dirigente de Florianópolis era também responsável pela coordenação da federação dos trabalhadores do ramo financeiro de Santa Catarina e atuava na CUT do estado.

No outro extremo do país, mais dois lutadores se foram antes de conseguir a vacina. José Pinheiro de Oliveira, 53 anos, presidia o sindicato de Rondônia e era bancário no Bradesco há 35 anos. O mesmo banco onde trabalhava Cosmo Aderaldo da Silva, também de 53 anos, e diretor de base do sindicato rondoniense.

Em Mato Grosso, Cleunice de Fátima Castro Rigoti, a Cleia, se recuperava de uma cirurgia de medula óssea, realizada no início de 2020. Mas a diretora da federação Centro-Norte foi infectada pela covid-19 e morreu no dia 3 de janeiro.

Alegria que fará falta

A alegria nordestina era um traço marcante de Adeilton Filho. Aos 58 anos, no dia de Natal, o secretário de Cultura, Esportes e Lazer do sindicato de Pernambuco não resistiu à infecção causada pela covid-19. Bancário no Bradesco, atuava em defesa da categoria desde 1994. Também fará falta o perfil humanista de Gilvan Santana, colega de Adeilton de banco e de sindicato, morto no ultimo dia 3 de maio.

O sindicato do Ceará perdeu dois dirigentes este ano. José Maria de Albuquerque Gallas, do Banco do Nordeste, o BNB, em 6 de março. E Januário de Souza Neto, de 52 anos, funcionário do BB, em 13 de fevereiro.

Francisco Abdala, o Chicão, se foi em 16 de junho do ano passado, aos 58 anos. O funcionário do Itaú ingressou no sindicato do Rio de Janeiro em 1985 e participou ativamente da luta contra a privatização do Banerj.

Sem perder a ternura

O Rio também perdeu Belmar Marchetti. No último dia 23 de maio, o bancário do Itaú e dirigente do sindicato, e federação do Rio e Espírito Santo foi levado pela covid-19. “A vida nunca foi fácil para Belmar, mas isso não lhe tirava da mente (o provérbio eternizado por Che Guevara): ‘Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás’”, lembram colegas de sindicato. “Belmar e sua família foram, por vezes, vítimas das chuvas de verão que assolam o Rio de Janeiro, mas nem mesmo o seu sofrimento lhe tirava o sentido da solidariedade com os muitos bancários que lhe procuravam. Sua disposição de luta por uma sociedade mais justa também era uma de suas marcas.”

Esses 17 dirigentes sindicais bancários não terão direito à vacina conquistada pela luta que com sua vida ajudaram a travar. Mas têm seus nomes inscritos nessa conquista que salvará outros tantos que poderão seguir o exemplo de força e coragem tão necessários para mudar o Brasil.


Colaborou Paulo Flores, da Contraf-CUT