Projeto recupera em Marabá memória das mulheres que participaram da Guerrilha do Araguaia

Publicado em 19/03/2021 09:12

Projeto recupera em Marabá memória das mulheres que participaram da Guerrilha do Araguaia

A atriz e militante Gracinha Donato lançou neste domingo 14 de março, coincidindo com o terceiro aniversário do assassinato de Marielle Franco, o projeto “Crônicas do Araguaia: Mulheres do Fogo, das Águas e das Matas”, que tem entre os objetivos resgatar a memória das mulheres que participaram da Guerrilha do Araguaia, o movimento lançado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em 1966, atacado militarmente pelo Exército em 1972 e derrotado em janeiro de 1975 com a morte e desaparecimento de quase todos os guerrilheiros.

O projeto, apoiado pela Secretaria da Cultura de Marabá por intermédio da Lei Aldir Blanc, no edital Cultura em Movimento 2020, prevê o lançamento de quatro vídeos-performance, o primeiro dos quais foi divulgado no domingo 14, cuja íntegra está no final do texto.

A guerrilha aconteceu no chamado Bico do Papagaio, região na fronteira entre Maranhão, Tocantins e Pará. Participaram da guerrilha cerca de 80 militantes do (PCdoB), entre elas 17 mulheres, que saíram de diversas cidades do país para participar do movimento guerrilheiro.

Segundo a Comissão da Verdade (CNV), que entre 2014 e 2016 investigou os abusos cometidos contra o movimento, quatro guerrilheiros foram presos ao final das operações militares, cinco mortos foram identificados e 64 continuam desaparecidos.


Ossadas desenterradas dos guerrilheiros mortos na Guerrilha do Araguaia

Coragem para resgatar a história

“Precisamos ter coragem de falar sobre essas guerrilheiras neste momento dramático de negação da cultura, negação da ciência. Falar de homens e mulheres que desafiaram o sistema, acreditando na transformação social e na transformação da vida a partir do campo, da floresta, a partir do povo da mata”, afirma a principal articuladora do projeto, Gracinha Donato, artista popular, membro do Coletivo de Cultura do MST e militante do MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração).

‘Hoje também é um dia importante porque estamos relembrando três anos de assassinato de Marielle Franco. E em memória de Marielle vamos resgatar, trazer presente essas guerrilheiras do passado e também dizer que a Marielle está presente e é uma semente, coincidentemente neste mês de março em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher”, acrescenta Gracinha na abertura do primeiro vídeo, baseado no livro Crônicas do Araguaia, do escritor e historiador Janailson Macêdo, professor de história da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

Memória da guerrilha ainda é forte

Janailson relata no vídeo histórias que recolheu no Araguaia durante a pesquisa para seu livro, que começou a escrever em 2014, coincidindo com as investigações da Comissão Nacional da Verdade. Confira aqui o capítulo do relatório da CNV relativo à Guerrilha do Araguaia.

“Essa região naquele momento tinha muita efervescência porque era alvo de muitos projetos do grande capital, de muitas transformações da Amazônia. E a história da guerrilha do Araguaia está muito relacionada a isso”, conta o historiador.

“São crimes que continuam sendo produzidos, ou seja, a ocultação dos cadáveres permanece. E o Estado brasileiro foi condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA em virtude disso. No primeiro contato que fiz na região, ficou clara a memória do sofrimento, mas muitas vezes também a memória positiva da relação dessa população com esses militantes do PCdoB. Então, esse tema me puxou”, lembra Janailson.

“Quando cheguei à região me impressionei com a lembrança que as pessoas ainda têm da guerrilha, apesar de ser um tabu. Em algumas localidades, por exemplo, as pessoas ainda têm medo de helicópteros, que foram largamente utilizadas na caçada aos guerrilheiros. O meu livro de certa forma dialoga com essa memória social da guerrilha do Araguaia”, destaca Janailson.

‘Importante para mostrar que nossa região fez história’

“Reviver a memória das mulheres guerrilheiras do Araguaia é algo de extrema importância, pois foi um movimento de resistência que mesmo com um coletivo pequeno conseguiu deixar seu legado em plena ditadura militar”, elogia Heidiany Moreno, diretora de Formação do Sindicato dos Bancários do Pará na subsede Marabá.

“Deixar essa memória registrada em audiovisual é uma forma para que as gerações atuais que não acompanharam os anos sangrentos da guerrilha saiba que a nossa região teve luta, teve resistência e fez história acreditando que um outro país era possível”, conclui Heidiany.

Os próximos vídeos-crônica do projeto serão lançados neste sábado 20 de março (“Desenhando Laura”), no dia 26 (“Do Outro Lado da Floresta”) e no dia 31 de março (“As guerrilheiras do Araguaia”).

Confira abaixo o primeiro vídeo.

Ficha Técnica:
Elenco: Gracinha Donato e Luciana Melo
Roteiro: Marcelo Cruz, Luciana Melo, Gracinha Donato
Edição: Marcelo Cruz
Fotografia/Montagem: Marcelo Cruz
Som direto: Nieves Rodrigues
Mixagem, masterização, desenho de som: Levi de Souza

 

Fonte: Fetec-CUT/CN